Quem está disposto a viajar, deve saber que a infinidade de papéis necessários para botar o pé fora do país é enorme. Faltando…vejamos…22 dias para minha viagem – putz! 22 dias, só – acabo de colocar tuuuudo em uma pasta e livrar-me do peso da burocracia em minhas costas. Ainda tenho algumas coisas a fazer antes de sair do Brasil, mas a papelada mínima exigida já foi guardada.
Deixa eu explicar essa história. Foi em um anúncio dos classificados, na parte de empregos, que vi a oportunidade que poderia mudar a minha vida. A comunidade do orkut deles diz: Viaje o mundo, e ganhe para isso. Uou! Parecia mágico. Como uma boa brasileira, desconfiei. Bom demais para ser verdade, mas não me custa nada mandar um currículo por e-mail. E não é que gostaram do meu currículo?!
Foi quando começaram com essa mania de quererem uma papelada ao meu respeito. Tive que preencher uns 3 arquivos em excel, e mandar novamente. Perguntas feitas em inglês, deveriam ser respondidas no mesmo idioma. Os anos de curso no Yázigi e as ferramentas de idiomas do google foram muito úteis, mas na busca simples, não adiantou revirar o google do avesso, que não achei o horário e o local onde ocorreria o próximo passo do processo seletivo. A data eu sabia, e estava se aproximando.
Despi o google inteirinho, usei e abusei do instrumento. E ele não me deu o prazer de saber a informação que eu queria! Heheheh. Perdi minhas esperanças (pausa dramática! :D). Nas vésperas da seletiva, recebi uma mensagem curta e grossa, via torpedo sms. “Esteja no lugar tal, em tal horário, com tais documentos.”
Meus olhos brilharam. No nervosismo de comparecer no local, acabei esquecendo a pasta com todos os meus documentos. Era do outro lado da cidade. Não tinha como buscar, nem havia ninguém, na minha casa, para levar. Perdi minhas esperanças novamente (pausa dramática!). Era um dia nublado, com previsão de chuva forte, Lei de Murphy total. No local havia uma feira de produtos náuticos. Tive que pagar R$15 para entrar. Um abuso!!! O que eu estava fazendo ali? De salto, na terra, em uma feira, na beira do Guaíba, longe da minha casa, sem carro, previsão de chuva forte, pagando R$15 para entrar em um lugar onde haveria uma seletiva, que eu possivelmente não passaria sem um inglês afiadíssimo e sem os meus documentos. Ainda estava carregando uma mala com as minhas roupas para a parte prática. Murphy ultrapassou todos os limites da negatividade comigo.
Fui uma das primeiras a chegar, graças aos conselhos dos meus pais. Sem a insistência deles eu possivelmente chegaria uma meia hora atrasada, para o gostinho do Murphy. O céu já estava mais escuro do que deveria e a brisa na beira do rio deixou os meus cabelos inosados. Imaginem o Bob Marley ruivo!! Prendi os cabelos para evitar essa situação. Já bastava a insegurança com o inglês. Quando liberaram a nossa entrada - e pude sair da terra, na qual meu salto atolava - todos começaram a preencher mais papéis. Percebi que alguns concorrentes traziam consigo dicionários de inglês, e lamentavelmente tive que rir da situação. Murphy tinha sido mais cruel com eles do que comigo.
Tivemos uma apresentação inicial toda em inglês, testando as habilidades da fala e escuta, prova teória na área de atuação, também em inglês, uma palestra sobre a empresa, depoimentos de ex-funcionários, intervalo e alguns foram liberados. Como eu concorria à vaga de Fitness Instructor, ainda tinha a parte prática, dar aula de ginástica em inglês. Troquei informações de vocabulário com alguns colegas solidários e de roupa (na mala, lembram?!), em um simples banheirinho químico. E botei para fora 6 anos de inglês + 4 anos e meio de faculdade de Educação Física + toda a hiperatividade da minha infância. Neste momento chovia muito, e o único lugar coberto deveria ser onde eu estava dando aula, pois tinha um público de mais ou menos 100 pessoas ali. Nem sei de onde saiu tanta gente naquela feira. Nunca entendi direito pq me selecionaram, mas certamente a animação pesou mais que o vocabulário naquela mini-aula.
Me considero uma pessoa de sorte. Não é todo o mundo que pisa em um navio. E apesar de uma lista interminável de documentos solicitados, e trabalho árduo à bordo, julgo possível trazer na bagagem muito mais do que estou levando.