Todos os dias, toda a refeição, a gente vai lá, botar os pratos para lavar, e dá de cara com um filipino, sorridente, baixinho, não mais que 1m45, que nos recepciona na maior alegria, apesar do trabalho duro que ele tem aqui no navio. A marca registrada dele é falar, toda hora: – “Ai ai aaai!”
No momento que eu me peguei falando aiaiai, além de dar oi, perguntar se está tudo bem, perguntei pra ele:
- Qual teu nome, hein?!
- Smile!! :D
- Smile???????? Como assim? Deixa eu ver o teu name tag?
- Ismail!! Ismail!! :D
- AAAAAAAaaah, Ismail!!
Huahauahua..que em função de ser tão sorridente, virou Smile.
Mas não era isso que eu ia falar…a história é que, numa dessas conversar rápidas, o sotaque filipino do Smile, dificultou a nossa comunicação.
Após uma reunião com todos os tripulantes, na qual foi anunciado o funcionário do ano, eu comentei com o Smile.
- Smile, tu que deveria ter ganhado o prêmio de funcionário do ano!!!!
Em inglês, obviamente. Ele, sorrindo, encabulado, comentou:
- Nããããão…Eu estava torcendo para a pilipin gun!!!!
Eu, sem entender direito, perguntei, gun? (arma, em inglês), fazendo mímica de arminha. Ele respondeu:
- Nooooooooo, gaaamm!! The pilipin gam!
- Gum, bubble gum????? O.o
Ele, já meio irritado, como eu nunca tinha visto antes…
- Noooooooooooo, giiiill!!! Like you…I’m boy, you’re a gill!!
- AAAAAAAaaah, GIIIIIRL!!!!!!!! The filipine girl!!
- Yeah, the pilipin giiill!!!
Huahuauhauhauhahuauauhaauhuhahua.
***
Realmente, trabalha-se muito aqui. Me divirto muito, também. As folgas são o que mais vale a pena, o que te faz pensar que apesar de toda saudade da família, dos amigos, da rotina, da cidade, dos costumes, essa vida tem recompensas.
É uma baita escola! Completa. Deveriam mandar as crianças para um navio por 1 mês, e não para a escola por 13 anos.
Estudo de línguas, português, inglês, espanhol, e tantas outras, base da comunicação, da ética, do respeito. Marketing. Expressão vocal, corporal, gestual.
Geografia, estudos sociais, em tantas cidades, mares, rios, mapas, culturas diferentes.
Matemática do tempo e do dinheiro, das horas de sono e de trabalho.
Arte exposta nas belezas da natureza, nas luzes e cores de cada pôr-do-sol visto do mar, na arquitetura das belas cidades, na dimensão das fotografias tiradas.
Ciências, da distância e do tempo de percurso, pra reencontrar os amigos e a família. Da vida animal, de aves quando se aproxima de terra, dos golfinhos.
Filosofia de bar, de quando se deita a cabeça no travesseiro, das políticas de trabalho, dos relacionamentos.
No meu caso, sobretudo, Educação Física, minha paixão, que vai além das teorias de fisiologia, ensina a resistência que o corpo tem em relação ao trabalho, a alimentação e a disciplina de um atleta, de uma vida regrada, os limites de cansaço, energia e motivação, usados ao extremo. Velocidade da vida corrida que levamos a bordo. Flexibilidade, força, concentração, objetivo, ação e resultado.